Joker

A visão de Todd Phillips para Joker passou completamente ao lado das minhas previsões para 2019. Não costumo ser levado pelo hype mediático mas após ter visto o trailer fiquei nitidamente com a sensação que a DC poderia efetivamente ter um (inesperado) ás na manga.

Agora que tive oportunidade de ver o filme e assentar algumas ideias, eis o que me parece relevante mencionar. A narrativa acompanha Arthur Fleck, um ser humano perseguido por uma infância complicada e que tenta perceber o seu lugar no Mundo, ao mesmo tempo que lida como uma condição médica invulgar.

Existem inúmeras metáforas e críticas à sociedade em que vivemos. A solidão, o bullying e a intolerância são uma constante ao longo deste filme, que nos ilustra na perfeição o quão desesperante pode ser a indiferença. Como habitualmente, não vou entrar em spoilers mas recomendo vivamente Joker. Está muito longe de se enquadrar no género de super-heróis, apesar de ter como pano de fundo a cidade de Gotham e a família Wayne.

Diria que é uma viagem pela mente perturbada de um ser humano que começa por pedir ajuda e acaba por ser esmagado por um sistema que vive de padrões pré-concebidos sobre as regras da sociedade. É uma experiência brutal, em certos momentos, mas que nos faz reflectir e repensar o caminho que optámos por seguir, enquanto espécie.

E que dizer da brutal interpretação de Joaquin Phoenix? É prematuro falar em Óscares mas estamos perante algo muito especial.

Para terminar, apenas destacar dois pontos: a excepcional recepção deste projeto por parte do público, convertendo-o, à data, no segundo mais lucrativo da DC, superado apenas por Aquaman. Sobre a eventual sequela, espero sinceramente que não se confirme, dado que este filme tem um acto final que define na perfeição o final da viagem de Arthur Fleck, com a sua transformação em Joker.

Excelente
90%

Ad Astra

Este filme foi um dos meus dark horses para 2019, combinando uma premissa interessante com um leque de actores de elevada qualidade. A narrativa acompanha a história de Roy McBride, filho de H Clifford McBride, um histórico pioneiro da SpaceCom, desaparecido há dezasseis anos, numa missão espacial.

O que parece inicialmente ser o enquadramento para traçar o perfil psicológico de Roy, torna-se rapidamente no ponto principal do enredo. Tudo começa numa série de descargas elétricas, provenientes de Neptuno, que aparentam estar relacionadas com o Projeto Lima, precisamente a missão que levou ao desaparecimento do seu pai.

A pedido dos seus superiores, Roy aceita viajar até Marte e enviar uma mensagem, com o intuito de avaliar a sobrevivência de Clifford McBride. Ad Astra é, na minha opinião, uma metáfora para a vida, que se foca em sentimentos como a perda, dor e a ambição desmedida do Homem. Gosto particularmente de um dos monólogos de Pitt, em que frisa “We’re world eaters, thus we journey to the stars”.

Existem algumas cenas de ação, sobretudo na Lua, mas diria que a grande experiência do filme é precisamente a viagem, que coloca Roy em contacto com os seus sentimentos mais reprimidos, permitindo avaliar prioridades e encontrar o seu próprio caminho.

Parece-me importante destacar a excelente performance de Pitt, assim como Tommy Lee Jones. Como habitualmente, vou evitar os spoilers mas convido-vos a dar uma oportunidade a Ad Astra. Existem momentos deliciosos, tais como a visão cínica sobre a colonização da Lua e a crítica ao espírito conquistador da Humanidade. E para terminar, que dizer da mensagem final, após termos conhecimento do resultado final do projeto Lima?

Spoilers… eu sei… fico por aqui 🙂

Mediano
70%

Harry Potter: 8 anos depois

Apesar de não ser um fã de Harry Potter reconheço que marcou uma geração, pelo que resolvi rever os oito filmes originais e partilhar a minha opinião. Acredito que um dos segredos do sucesso está precisamente na estabilidade do elenco principal (excepção para Richard Harris que faleceu, o que forçou ao recast de Dumbledore), aliado à qualidade dos actores.

As escolhas estão muito bem conseguidas e a sinergia entre Harry, Hermione e Ron Weasley contribui decisivamente para o sucesso da franchise, bem suportado pela inclusão de nomes sonantes como Maggie Smith, Robbie Coltrane, John Hurt, David Bradley, Alan Rickman, Gary Oldman e Ralph Fiennes, para citar alguns.

Os primeiros quatro filme são marcados por um tom mais leve, em que nos é apresentada a premissa principal da narrativa, aliada a aventuras individuais que aparentam não estar relacionadas. Por outro lado, os filmes seguintes são muito mais sombrios, explorando temas complexos, o que acaba por funcionar bem, face ao amadurecimento dos personagens e do respetivo público alvo.

A saga Harry Potter é uma viagem fantástica pelo mundo da magia, embora nunca esqueça por completo o universo dos Muggles. O humor presente vai desaparecendo gradualmente, sendo substituído pelo desespero nos dois últimos filmes, com a busca pelos Horcruxes. Estamos perante uma franchise que durante uma década trouxe ao cinema a visão de JK Rowling, dando conclusão à clássica luta entre o Bem o Mal.

Em conclusão, diria que os filmes envelheceram bem e embora não concorde com todos os caminhos tomados, recomendo que revisitem ou tomem conhecimento deste universo, caso ainda não o tenham feito.